Temporada de IPOs tem pausa para retomar fôlego

A suspensão ou adiamento de dezenas de IPOs (Initial Public Offer) nas últimas semanas provocou um questionamento no mercado. Será que a janela de oportunidades para a abertura de capital na Bolsa brasileira estaria se fechando novamente? Gestores e especialistas ouvidos pelo Panorama Amec dizem que não, pois as oportunidades continuarão em 2021 com um mercado aquecido impulsionados por investidores ávidos por cases de empresas com fundamentos sólidos.

Marcos de Callis, estrategista da gestora Hieron

Marcos de Callis, da Hieron. Foto: Divulgação.

Na verdade, o que está ocorrendo é uma conjunção de fatores conjunturais que provocam um aumento momentâneo da volatilidade do mercado. Com isso, as condições de valuation para os IPOs são prejudicadas, mas isso deve ser momentâneo. “As empresas estão esperando por melhores condições de precificação. O apetite continua alto por parte dos investidores pessoas físicas e institucionais”, diz Marcos de Callis, Estrategista da Hieron Patrimônio Familiar e Investimento.

“Não mudou o cenário de médio e longo prazos. Não mudaram as perspectivas das empresas brasileiras. Os juros não terão um novo ciclo forte de subida. Mercado de poupadores e investidores continuarão buscando oportunidades em ações”, comenta Álvaro Gonçalves, CEO da Stratus. Para ele, o mercado continua aquecido pois as empresas continuam precisando de capital de longo prazo, o que casa com a liquidez de ativos dos investidores.

Álvaro Gonçalves, do Grupo Stratus. Foto: Divulgação.

O gestor diz que foi convidado nos últimos 40 dias para uma dezena de reuniões com empresas que estão pensando em fazer IPO. “Existe grande oferta de dinheiro devido à nova realidade de juros muito baixos. A redução dos juros é um fenômeno global e o Brasil agora está colado nessa tendência. Nesse cenário, o valor dos ativos aumenta”, analisa Gonçalves.

O que está dificultando momentaneamente a continuidade dos IPOs na Bolsa doméstica é a conjunção de diversos fatores de tensão nacionais e internacionais. A questão do risco de desequilíbrio fiscal e furo no teto de gastos das contas públicas no Brasil não é nova, mas veio se agravando nos últimos meses.

“Ninguém falou ainda de forma assertiva como vamos fechar as contas. Ainda não vemos perspectivas de um alinhamento das lideranças políticas. Isso não ocorrerá antes das eleições municipais. O mais provável é que a questão seja endereçada para o início do ano que vem”, prevê o CEO da Stratus.

Para Marcos de Callis, a questão fiscal preocupa, mas terá um desfecho positivo. “Acredito que o governo, ao final, irá fazer a coisa certa. O risco de desequilíbrio fiscal deve continuar alto até depois das eleições municipais. A volatilidade continua alta no quarto trimestre e depois haverá uma resolução positiva em 2021”, projeta o estrategista. Para ele, o início do próximo ano será o momento do “vai ou racha” para o país. “Em todo caso, estamos otimistas, acreditamos que o governo irá retomar a âncora fiscal”, comenta de Callis.

Volatilidade internacional

Para o gestor da Hieron, há um outro fator conjuntural que está afetando mais o humor do mercado. Ele acredita que as eleições americanas podem ter um desfecho complicado em termos judiciais.

“Estamos passando por um período de aumento na volatilidade de preços, inclusive nos mercados internacionais por causa das eleições americanas. Estou considerando um alto risco que as eleições dos EUA possam ser judicializadas”, alerta de Callis. Ele acredita que se Donald Trump perder por uma pequena margem de votos, poderá ocorrer judicialização e isso não está precificado corretamente nas Bolsas”, diz.

Além dos riscos e da incerteza do resultado das eleições presidenciais nos EUA, outro fator que continua provocando desestabilização dos mercados no mundo inteiro é a pandemia, com sua segunda onda na Europa e em diversos estados americanos. “A pandemia continua afetando negativamente a economia com os riscos de novas ondas, e isso também provoca aumento da volatilidade”, aponta Álvaro Gonçalves.

Para o gestor da Stratus a eleição americana produz alguma instabilidade pois existe a chance provável de um resultado que leve a uma mudança de gestão macro internacional. Esse aumento da volatilidade tanto doméstica quanto internacional é o que está prejudicando o valuation das empresas, o que produz uma retração dos IPOs neste final de ano. Em todo caso, para ele as perspectivas para 2021 continuam positivas.

Otimismo

O próximo ano será um período muito mais positivo para os IPOs. Se em 2020 já ocorreu uma retomada do movimento de ofertas primárias de ações, após a superação da conjuntura das eleições dos EUA e Brasil, o mercado estará menos volátil. “Muitos irão esperar para fazer os IPOs no ano que vem, quanto esperamos novos recordes em emissões e no crescimento econômico”, diz Gonçalves da Stratus.

João Rafael Araújo, da Grant Thornton Brasil. Foto: Divulgação.

João Rafael Araújo, Head de Capital Markets da Grant Thornton Brasil, prevê que o movimento de IPOs continua com espaço para empresas com fundamentos robustos. “A preparação para novas ofertas continua em andamento. O pipeline está cheio pois o cenário estrutural não mudou. Os juros continuam e continuarão baixos e isso é o principal fator de motivação do mercado”, comenta.

Ele diz que a janela de 2020 já está se fechando, mas que haverá uma retomada em breve, por volta de março ou abril do próximo ano. O especialista alerta, porém, que o mercado estará cada vez mais maduro e seletivo. “É muito importante a preparação adequada para o IPO, com as referências mínimas em termos de reporte e governança”, comenta o executivo da Grant Thornton.

Atuação da Amec

Neste ponto de preparação das empresas, a Amec tem realizado um trabalho de acompanhamento da governança tanto das novas companhias quanto das antigas. “O ponto mais importante para a Amec e suas associadas é o relacionamento das empresas com os investidores. Ainda temos visto atitudes que dificultam a interação das empresas com o mercado, com um certo conservadorismo das áreas de RI, que não possibilitam um relacionamento mais próximo”, diz Fábio Coelho, Presidente Executivo da Amec.

Ele toma como exemplo negativo casos recentes de empresas consolidadas, em que houve uma atitude de retração da área de RI, que não se posicionou tempestivamente quando provocada pelos investidores. E aponta a necessidade de uma boa preparação para as empresas que buscam abrir o capital na Bolsa. “As novas companhias já devem chegar com estrutura mínima de seus órgãos de governança funcionando, prontas para o relacionamento e engajamento”, recomenda Fábio.

Marcos de Callis ressalta a preocupação com as novas empresas que estão estreando na Bolsa. “Vemos algumas empresas que não estão plenamente preparadas para o IPO em termos de governança. É um risco não apenas para o investidor, mas para toda a indústria de gestão de recursos”, diz. Ele aponta, porém, que o problema também está do lado dos investidores, sobretudo, as pessoas físicas, que não têm condições de avaliar corretamente os riscos e problemas das novas companhias na Bolsa.

Em todo caso, ele também projeta que a janela de IPOs reabrirá com força em 2021. Não quer dizer que todo mundo vai aproveitar as oportunidades de liquidez do mercado. O investidor está mais seletivo, tem buscado maior diversificação setorial. Em setores como home building (construtoras) já ocorreu grande número de IPOs. O mercado deve oferecer oportunidades para as cases mais sólidos.

Álvaro Gonçalves, da Stratus, acredita que o movimento de IPOs deve se intensificar ao longo dos próximos anos. Para ele, existe um grande número de empresas brasileiras em condições de avançar para o IPO. “Há centenas de empresas em condições de abrir o capital em Bolsa em um período de 3 a 5 anos no Brasil. Claro que são as de maior porte que estão mais próximas de fazer isso”, afirma com otimismo.

Com um movimento intenso de abertura de capital, o papel dos investidores e consequentemente da Amec na análise das condições de governança das novas companhias vai ganhando maior relevância, segundo o gestor da Stratus. “Será necessário promover a revisão de governança de tudo isso. E a Amec tem um papel fundamental na defesa dos direitos dos minoritários”, comenta Gonçalves.