Segunda onda da Covid-19 deve prolongar estímulo dos governos e afrouxamento fiscal

A segunda onda de Covid-19 já é uma realidade em diversos países da Europa. Ainda que provoque preocupação para as populações e os governos, o fenômeno deve provocar impactos sanitários menores em comparação com a primeira onda e medidas menos restritivas de mobilidade. Entretanto, os impactos sobre as economias, sobre as políticas de auxílio e especialmente sobre alguns setores específicos estão se fazendo sentir com alguma relevância.

Pablo Riveroll, da Schroders. Foto: Divulgação.

“A segunda onda está ocorrendo em vários mercados desenvolvidos, principalmente na Europa e em alguns estados dos EUA. Acreditamos que isso significará a continuidade da tendência atual de medidas de estímulo dos governos e políticas fiscais muito frouxas”, prevê Pablo Riveroll, Diretor de Renda Variável da Schroders para o Brasil e América Latina. Neste sentido, o gestor projeta que o processo de normalização da economia deve demorar mais tempo que o previsto. “Em termos de ambiente global, isso significa maior liquidez e fraqueza contínua do dólar”, comenta Riveroll.

Ele prevê ainda a manutenção das taxas de juros em níveis baixos, o que continuará a beneficiar o crédito imobiliário e, portanto, a demanda das construtoras por aço e reformas residenciais. Os patamares reduzidos dos juros incentivam também maior investimento em ativos de risco, o que favorece as plataformas de investimento e a Bolsa.

Vivendo atualmente na Holanda, Daniela da Costa Bulthuis, Gestora da Robeco e Especialista em Mercados Emergentes, alerta que a segunda onda já é uma realidade evidente na Europa. Porém, diferente da primeira, quando os governos impuseram a realização de lockdown severo, agora eles estão procurando aumentar a prevenção para evitar novas medidas restritivas. “Na primeira onda ninguém sabia de nada e o impacto na economia foi muito forte. Agora os governos realizam todo esforço para evitar um novo lockdown”, diz.

DANIELA COSTA-BULTHUIS

Daniela Costa-Bulthuis, da Robeco. Foto: Divulgação.

Ela explica que a segunda onda tem expressões diferentes nos países. Na Espanha, por exemplo, a nova onda é bastante ampla, diferente da situação da Itália, onde provoca menor impacto. Um ponto importante é que toda a infraestrutura de saúde não foi desfeita e continua montada para atender a população. Ela prevê também que os estímulos fiscais deverão se prolongar em diversos países e a política monetária não deve sofrer grandes mudanças.

Impacto sobre mercados

O impacto da segunda onda sobre os mercados emergentes deve ser bem menor que a primeira. “Não houve sell off de mercados emergentes. Não está ocorrendo forte precificação. Acredito que as economias estejam mais bem preparadas, inclusive no Brasil”, comenta Daniela.

A Gestora da Robeco aponta que alguns setores como o de “properties” (imóveis comerciais) e de transportes continuarão bastante prejudicados por conta da segunda onda. Ela lembra que na Europa foi ensaiado um retorno aos escritórios, mas que logo perdeu força. “Vai sobrar espaços nos escritórios, sem dúvida. Tem muita gente ainda trabalhando em casa”, comenta. Outros setores mais prejudicados são entretenimento, lazer e viagens, cujo impacto negativo deve se prolongar.

Ela prevê também que haverá forte aumento no desemprego global devido à crise de alguns setores. Um exemplo é o de óleo e gás, que devido à queda no setor de transportes, está começando a cortar custos. As recentes demissões globais na Shell representam um exemplo emblemático. Outro setor que está começando a enxugar com mais intensidade é o bancário. “A tendência de digitalização foi acelerada no mundo inteiro, criando espaço para redução e cortes de empregos”, indica Daniela.

Recuperação mais lenta

Eduardo Figueiredo, Diretor e Head de Renda Variável da Aberdeen no Brasil, diz que a segunda onda já era esperada e que o principal avanço em relação à primeira é que os governos aprenderam a lidar com a pandemia. “A primeira onda foi um grande teste que gerou forte aprendizado. Estamos vendo que a Europa, por enquanto, está adotando medidas menos restritivas severas”, observa.

Eduardo Figueiredo, da Aberdeen. Foto: Divulgação.

Por outro lado, a chegada da segunda onda indica um ritmo mais lento de recuperação da economia. “Nossas previsões são mais cautelosas. Percebemos que muitos setores e empresas estavam precificando recuperação em ‘V’, o que não deve se confirmar”, conta. No Brasil e em diversos países, a recuperação foi impulsionada por medidas de auxílio emergencial. “Já estávamos céticos com um ritmo de recuperação muito rápido antes mesmo da segunda onda. O problema sanitário ainda não foi solucionado”, diz Eduardo.

Setores em alta

Se por um lado há setores que continuam sofrendo com a pandemia, por outro, há empresas que oferecem perspectivas mais promissoras. Mais além das empresas de e-commerce, que estão se sobressaindo na crise, todas aquelas com processos de transformação digital, tendem a se beneficiar, segundo analisa o gestor da Aberdeeen. O gestor cita como exemplos Magazine Luiza, Lojas Renner, Raia-Drogasil, entre outras. “Estamos priorizando as empresas que estão em um movimento mais amplo de digitalização”, comenta.

O gestor da Aberdeen indica ainda a preferência por empresas com management de qualidade e modelos de negócios resilientes. “São empresas que respondem bem às mudanças de cenários. Elas passaram no grande teste que foi a primeira onda de Covid e agora estão saindo mais fortes, ganhando maior reconhecimento dos investidores”, diz Eduardo.

Pablo Riveroll coincide com a análise dos setores mais beneficiados. “Certas tendências estruturais foram aceleradas pela Covid, mesmo as que já estavam acontecendo antes da pandemia. Isso inclui e-commerce, com toda a sua rede de cadeia de suprimentos, pagamentos digitais, logística, comunicação digital, mais as cadeias de suprimentos locais”, diz o gestor da Schroders. Em sua análise, os setores que devem sofrer mais são os de imóveis corporativos, agências de viagens, companhias aéreas, lojas físicas, restaurantes e shoppings.

Ele diz que a segunda onda não deve produzir forte impacto sobre a economia brasileira. “Nosso cenário-base é que não haverá uma segunda onda significativa no Brasil. Ela apresenta riscos menores do que a primeira, pois as pessoas e as empresas já se adaptaram”, prevê Riveroll.

Ele diz ainda que o governo já gastou muito para apoiar a economia e isso aumentou significativamente o déficit fiscal. Por isso, é improvável que em uma segunda onda haja capacidade de tanto apoio governamental quanto na primeira. 

Tendências ESG

A continuidade da pandemia deve provocar também a evolução dos princípios e práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) no mundo corporativo e na indústria de investimentos.  “A urgência por cuidados de saúde adequados e acessíveis é ainda maior. A necessidade de saneamento de alta qualidade também é ainda maior, pois a necessidade de higiene é mais evidente”, explica Riveroll.

Eduardo Figueiredo acredita que o movimento de valorização do ESG tem sido positivo desde o início da pandemia e deve se estender por mais tempo. “As empresas que estão priorizando os temas e iniciativas ESG estão ganhando maior reconhecimento por parte dos investidores. É uma tendência não apenas mitigar riscos, mas também para identificar oportunidades”, comenta. O gestor da Aberdeen diz que as empresas que respondem bem ao ESG tendem a ser beneficiadas com um custo de capital mais baixo, atraindo maior volume de investimentos. E isso vem crescendo desde o início da pandemia.