Investidores mantém baixo nível de resgates frente à crise

Investidores estrangeiros e domésticos estão realizando movimentos caracterizados por poucos resgates frente à crise provocada pela pandemia de COVID-19. O fenômeno denota amadurecimento frente a outras crises, quando os resgates ocorriam em larga escala, o que culminava na realização de prejuízos.

“Nesta crise, estamos verificando um comportamento mais maduro tanto de investidores estrangeiros quanto locais em relação ao baixo fluxo de resgates dos fundos com ativos de maior risco”, diz Alexandre Silvério, CIO e Sócio da AZ Quest e membro do Conselho da Amec. Os investidores estrangeiros já estavam mais afastados do mercado brasileiro nos últimos anos, ou seja, houve um movimento de resgate anterior, porém agora na crise da pandemia, não houve uma acentuação dos resgates.

Alexandre Silverio, CIO e Sócio da AZ Quest

Alexandre Silvério. Foto: Divulgação.

O gestor da AZ Quest acredita que os estrangeiros continuarão distantes do mercado brasileiro nos próximos meses até que se desenhe com maior nitidez o processo de recuperação e retomada da agenda de reformas. A questão do equilíbrio fiscal é outro ponto preocupante para tais investidores, ainda mais com o agravamento dos gastos públicos em decorrência do auxílio emergencial à população e empresas.

Já o investidor local não deve sair dos fundos de ações e multimercados. Ao contrário, Silvério percebe que a tendência seja até de ampliar as aplicações em fundos de maior risco. “Estou percebendo um fluxo positivo para fundos de ações, para a indústria como um todo, pois os juros continuam muito baixos. Há poucas alternativas para o investidor local”, comenta.

Neste sentido, os gestores continuam buscando por empresas de qualidade, privilegiando papéis de companhias que devem passar pela crise de maneira menos dolorosa e que poderão ganhar mercado em seus setores. “Estamos privilegiando empresas não endividadas, robustas, com capacidade de rápida adaptação. Não estão em um único setor, podem estar em setores diferentes. Pode até ser uma empresa de varejo, como por exemplo, a Magazine Luiza, que é uma ação que já tínhamos em nossas carteiras e continuamos gostando dela”, revela.

O Diretor da Aberdeen no Brasil e membro do Conselho da Amec, Peter Taylor, reforça a visão de que os investidores

Peter Taylor,

Peter Taylor. Foto: Anna Carolina Negri/Valor

estrangeiros não estão promovendo resgates em grande escala em decorrência da crise da pandemia. “Não estamos verificando muitos resgates dos investidores de fundos de mercados emergentes. Todas as economias têm problemas. Não é uma crise localizada nos mercados emergentes”, explica. O gestor analisa que como se trata de uma crise global, não há uma forte migração de recursos de mercados como o brasileiro em direção a outros mais desenvolvidos.

Taylor comenta que podem ocorrer algumas realocações táticas entre mercados, mas não devido ao movimento de resgates, e sim dos próprios gestores dos fundos que buscam melhores desempenhos. “Tomamos decisões táticas de realocações eventuais, mas não há resgates generalizados”, diz o Diretor da Aberdeen.

Reposicionamentos táticos – Taylor explica que, no caso da asset, os ativos do mercado brasileiro fazem parte de fundos de países emergentes. Neste sentido, as opções de investimento no país encontram-se atualmente em pequena desvantagem em comparação aos demais. “Estamos mais céticos com o mercado brasileiro. Infelizmente, temos muitas incertezas. Há várias partes do mundo que oferecem maior segurança sobre a pandemia, em particular na China e em países como Coreia e Taiwan”, comenta.

Ele diz que esses mercados apresentam menor redução de crescimento. A maioria dos fundos tem melhores opções para investir na China. Antes da pandemia, o Brasil começava a construir uma história de círculo virtuoso, com a realização de reformas, crescimento, e menos risco político. Mas agora, o gestor explica que o círculo perdeu força com o advento da pandemia e do aumento dos riscos de desequilíbrio fiscal do governo.

Por outro lado, o fator positivo no mercado brasileiro é o valuation de empresas, com preços muito baixos. “Há empresas de alta qualidade, que representam boas oportunidades se tivermos uma visão de longo prazo. Apesar de não vermos boas perspectivas de curto prazo, mas poderão se tornar empresas vencedoras de longo prazo”, Taylor.

Funcionamento dos escritórios – O Diretor da Aberdeen lembra que as duas primeiras semanas após o anúncio da pandemia pela OMS foram mais desafiadoras para os escritórios da asset ao redor do mundo. Agora, passadas 5 ou 6 semanas, praticamente não há mais problemas com o funcionamento dos sistemas e o trade de Bolsa. Tudo está funcionando sem problemas.

O maior desafio que ainda persiste diz respeito à adaptação dos colaboradores ao home office. “Claro que temos o desafio de todos que estão trabalhando em casa, com distrações com a família”. Porém, as questões da empresa são resolvidas normalmente por e-mail ou videoconferência. Outro aspecto importante é a segurança em videoconferências, com a utilização de um sistema específico. “Buscamos duas coisas: segurança das informações e conversas e gravações das reuniões por razões de compliance”, diz Taylor.

Escritórios na Ásia e Itália – O Grupo Azimut, controlador da AZ Quest, possui escritórios na China e outros países asiáticos, sendo que sua matriz fica no norte da Itália. No início da pandemia, as informações chegavam, mas não era possível prever que se tornasse um fenômeno mundial em larga escala. “Fomos aprendendo sobre a pandemia. No começo parecia algo localizado, não era primeira vez que tinha surto”, lembra Alexandre Silvério.

Quando a pandemia chegou na Itália, foi possível perceber que se tratava de algo mais sério. A velocidade das medidas contingenciais na própria Itália, porém, demoraram para serem tomadas. “A reação foi mais rápida por aqui. Estamos com 90% de nossos colaboradores desde 16 de março em regime de home office. É possível manter nossos processos de investimentos intactos”, comenta Silvério.

Ele diz que é possível continuar com atividades e fóruns de discussão de forma virtual, mas que está percebendo uma mudança estrutural do ponto de vista do negócio, com um novo relacionamento com stakeholders.