Diagnóstico e Desafios para o Crédito Privado: Visão dos gestores sobre impactos da crise

O mercado de fundos de crédito privado está enfrentando um dos maiores desafios de sua história no país. Com importante desenvolvimento desde 2017, quando houve ampliação das emissões de títulos de crédito privado para financiar empresas e aumento da captação de recursos para fundos dessa modalidade no Brasil, o setor agora é um dos que tem mais sofrido com a recente crise.

Falta de Liquidez

“É uma crise muito mais de liquidez dos fundos de crédito privado do que de problemas nos balanços das empresas”, explica Daniel Celano, Country Head da Schroders no Brasil. Com o advento da pandemia no Brasil, houve uma rápida desvalorização das cotas dos fundos que alocavam em títulos de crédito privado, provocando uma forte onda de resgates no final de fevereiro e nas primeiras semanas de março.

Daniel Celano, Country Head da Schroders no Brasil

Daniel Celano, Schroders. Foto: Divulgação

Para honrar com os resgates de recursos, os gestores tiveram de vender os ativos rapidamente no mercado secundário, que não tinha liquidez suficiente para absorver os papéis. “O tamanho da crise no Brasil é quase do mesmo tamanho de outros países, mas foi agravada pela falta de liquidez do mercado de crédito”, diz Celano.

Marcelo Farias, Gerente-Executivo da BB DTVM, ressalta que nos primeiros dias da crise a falta de liquidez do secundário foi de fato o problema principal. “Não é como a Bolsa que apresenta liquidez suficiente para absorver e precificar corretamente as vendas de ações. No mercado de crédito, muitas assets tiveram de acelerar a alienação de ativos. O resultado disso foi que as vendas foram muito depreciadas no auge da crise”, explica o gestor da BB DTVM.

Parte dos investidores, principalmente pessoas físicas com perfil mais conservador, ficou assustada com as cotas negativas em fundos de renda fixa. Mesmo os fundos com perfis mais conservadores, com ativos high grade, e até mesmo os fundos DI com alguma exposição aos títulos privados, registraram cotas negativas. “É diferente dos clientes de renda variável, que já consideram a possibilidade de perder em um mês e ganhar em outro. Os investidores de renda fixa não estavam acostumados e, por isso, exerceram uma pressão de resgate, lembra Celano, da Schroders.

A queda da Selic e da remuneração dos títulos públicos vinha incentivando os investidores a tomarem posições de maior risco nos últimos meses. Por outro lado, as empresas começaram a lançar mão de maior volume de emissões no mercado de capitais para financiar suas atividades. Era um círculo virtuoso que vinha beneficiando tanto investidores, gestores e empresas. Com a chegada do vírus ao Brasil, houve um impacto muito forte sobre esse mercado que só agora está conseguindo se estabilizar novamente.

Atuação dos Reguladores

Com a evidente falta de liquidez do mercado, o Banco Central anunciou um conjunto de medidas para promover liquidez ao mercado, dentre elas a liberação de compulsório da ordem de R$ 90 bilhões, direcionada à compra de títulos privados no mercado secundário por parte dos bancos. O problema é que do montante total, apenas parcela pequena chegou de fato ao mercado.

O resultado é que não houve ponto de inflexão até meados de abril na queda do valor dos ativos. Então os spreads começaram a abrir e chegaram a até CDI mais 5% para ativos com rating alto. “Com as taxas mais atraentes, outros players como fundações, assets e até alguns fundos multimercados começaram a comprar ativos de crédito no secundário”, informa Marcelo Farias.

Com isso, o mercado começou a reagir e os spreads começaram a fechar novamente. Atualmente, as taxas médias estão em CDI mais 4% ou 3%, ainda bastante atraentes para alguns tipos de investidores. O mercado ganhou maior dinâmica, representando oportunidades de compra e giro das carteiras.

Oportunidades

O Instituto Metrus é um fundo de pensão que está analisando as oportunidades de aplicações em

Keite Bianconi, Diretora do Metrus

Keite Bianconi, Metrus. Foto: Divulgação

ativos de crédito. “Tem papéis de empresas muito boas no mercado secundário, com rating triplo A, com taxas atraentes para nossa meta atuarial”, explica Keite Bianconi, Diretora do Metrus. Ela dá o exemplo de Letras Financeiras de primeira linha, cujos spreads podem ajudar a fundação a bater suas metas em 2020.

Sua análise coincide com o diagnóstico de elevados saques dos investidores pessoas físicas. “Esses investidores sentem mais o efeito da crise e se perguntam, o que vai acontecer com meu dinheiro? Por isso, teve muito resgate em fundo de crédito e os gestores de fundos tiveram de vender papéis aceleradamente”, diz Keite.

Necessidade de ferramentas

Para Daniel Celano, a crise dos fundos de crédito privado evidenciou a necessidade de criação de regras e ferramentas para corrigir as distorções do mercado. “Lá fora os mercados acionam alguns mecanismos que funcionam para mitigar os efeitos das crises”, diz Celano. Ele lembra do mecanismo de swing pricing que promove um sistema de marcação diferenciada para os clientes que estão resgatando cotas nos momentos de estresse. “É um mecanismo que disciplina uma porta de saída dos investidores e visa preservar os clientes que ficam, com a mitigação das perdas”, defende.

O executivo da Schroders ainda acredita que o Banco Central, apesar de ter uma atuação decisiva, deve continuar agindo para corrigir os problemas do mercado secundário. E a Comissão de Valores Mobiliários também deveria atuar em novas regulações para resgatar a confiança do mercado de crédito privado para os investidores. “É um grande aprendizado para o mercado, gestores, investidores, reguladores, todos nós estamos aprendendo com a crise atual”, comenta. O mercado ainda espera a aprovação da PEC n. 10/2020, denominada de “Orçamento de Guerra” que permita a atuação direta do Banco Central na compra de títulos no secundário, entre outras medidas.

Perspectivas

Com a redução da pressão pelos resgates e a estabilização nas curvas das taxas, os spreads podem

Marcelo Farias, Gerente da BB DTVM

Marcelo Farias, BB DTVM. Foto: Divulgação

até fechar novamente. A partir da 2ª quinzena de abril houve um movimento de ajuste de oferta e demanda, com uma melhora real do mercado, comenta Marcelo Farias, da BB DTVM. As assets puderam voltar a atuar com maior previsibilidade de fluxo de caixa na ponta compradora.

A força compradora aumentou com as fundações e algumas assets, especialmente no segmento de investidores institucionais. E as medidas do Banco Central começaram a render frutos como o aumento do limite de garantias do FGC para os Novos DPGEs – Depósito a Prazo com Garantia Especial. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou na semana passada R$ 15 bilhões em linhas de crédito para o segmento de PME.

“Tudo isso fez com que a curva sofresse a esperada inflexão e agora está ascendente, porém, as perdas foram expressivas”, diz o Gerente da BB DTVM. Ele alerta que ainda não dá pra ficar tranquilo e é preciso continuar monitorando qualidade dos ativos. O cenário de instabilidade e volatilidade ainda pode ser longo e inspira cautela” comenta Farias.

O Gestor de Crédito Privado da Schroders, Leandro Trielli, explica que ainda não há clareza do day after da pandemia. Ele prevê que até os papéis de alta qualidade enfrentarão forte volatilidade, em um caminho não muito suave. “O ponto de inflexão já começou e haverá recuperação de parte da marcação a mercado”, aposta Trielli, sem, contudo, prever a velocidade da retomada.

“A maioria das empresas em nosso portfólio high grade tem caixa para passar a crise, mas claro que isso depende da duração da quarentena. O governo também não tem interesse em deixar as empresas naufragarem”, diz Trielli. Em todo caso, todos apostam que o crédito privado ganhou bastante importância nos últimos anos e tanto os agentes de mercado quanto o governo estão empenhados em manter seu espaço no financiamento das empresas.