Assets globais mudam rotinas diante de novo cenário

Assim como tem ocorrido no Brasil, as assets globais têm adotado uma nova rotina desde o início da pandemia para manter o funcionamento operacional para dar conta da gestão dos fundos de investimentos e atendimento aos clientes e stakeholders. A BlackRock, por exemplo, está operando globalmente com 90% ou mais da equipe em regime de home office no mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde mantém escritório próprio.

“O funcionamento das operações continuam normalizadas em todos os países graças à utilização de recursos tecnológicos proprietários, com a utilização de ferramentas de gestão e controle de risco próprios. Não temos enfrentado problemas com o nível de conectividade interna e externa”, comenta Carlos Takahashi, CEO da BlackRock no Brasil e membro do Conselho Deliberativo da Amec.

Carlos Takahashi

Carlos Takahashi, CEO da BlackRock no Brasil

No Brasil, o funcionamento com o home office está completando um mês, pois começou a partir de 16 de março. E o relacionamento com outros players e fornecedores também continua normalizada, como por exemplo, com a B3, com o administrador BNP Paribas e com o Credit Suisse, que atua como broker e market maker. “Conseguimos superar as preocupações iniciais com as questões operacionais. Mas temos mantido o padrão de segurança e eficiência das operações”, diz Takahashi.

O gestor chama a atenção para um fator positivo, que é o fato de que o distanciamento físico está fazendo com que as pessoas valorizem o relacionamento mais próximo com clientes e fornecedores. “Todos estamos mais disponíveis para conversar. Hoje percebo maior interesse entre as pessoas. A distância física provocou uma espécie de humanização das relações”, conta o CEO da Blackrock no Brasil. Ele comenta que quando solicita informações, as pessoas não hesitam em atender prontamente de maneira personalizada.

Isso ocorre porque as relações tendem a serem hoje mais diretas, com menos intermediários. “As barreiras foram caindo. Eram barreiras que o mundo corporativo foi construindo ao longo do tempo, mas que não serviam mais. Hoje o acesso às pessoas é mais fluído”, afirma Takahashi.

Trabalho e família em home office  – Daniela Costa-Bulthuis, Portfólio Manager da Robeco e integrante do Conselho Deliberativo da Amec, comenta que o escritório da asset na Holanda também está funcionando com a maior parte da equipe no regime de home office. Algumas poucas pessoas que operam os sistemas mais pesados, de back-office e TI, ainda mantém uma estrutura mínima no escritório.

Daniela Costa-Bulthuis

Daniela Costa-Bulthuis, Portfólio Manager da Robeco

Para a gestora, o maior desafio de se trabalhar em casa é enfrentado por profissionais que possuem filhos pequenos, como é o caso dela. “Nós não temos acesso à contratação de babás na Holanda e as creches estão fechadas”, conta Daniela, que tem três crianças, o mais velho com apenas 8 anos de idade.

“Tem sido um grande aprendizado para a vida pessoal. O fato positivo é que percebo que as pessoas estão mais tolerantes quando dizemos que temos de nos dividir para acompanhar as tarefas familiares”, comenta a gestora da Robeco.

Riscos impõem cautela – Daniela Costa recomenda cautela para os investidores estrangeiros com os ativos no mercado brasileiro. “Vemos alguns fatos preocupantes com o Brasil, como a deterioração da situação política, a fragilidade do equilíbrio fiscal e a chegada da temporada de gripe com o inverno do Hemisfério Sul”, diz a gestora. Ela diz que os investidores que são clientes de sua asset estão demandando mais informações sobre a situação no Brasil, pois não conseguem entender os conflitos entre integrantes do Governo Federal e entre os três poderes.

“Ainda não estamos verificando uma onda de resgates dos ativos brasileiros. A recuperação poderá vir mais adiante, mas ainda não há evidências claras”, comenta. A gestora revela ainda que os novos investimentos são direcionados em sua maioria para os mercados da China, Coreia do Sul e Taiwan, onde a economia já deu sinais de recuperação.

Maior volume de ETFs – Enquanto algumas classes de ativos são menos acessadas, como por exemplo, o Crédito Privado, outras como os ETFs (Exchanged Traded Funds) estão verificando maior movimentação nas últimas semanas. “Atuamos com ETFs no Brasil desde 2004 e o crescimento vinha sendo bastante gradual. Com a crise do Coronavírus de 2020, percebemos um salto na utilização dos ETFs, que se tornou um dos ativos mais negociados na Bolsa”, comenta Takahashi.

O gestor justifica a maior movimentação, que chega a até R$ 2 bilhões diários no caso do ETF BOVA11, devido a maior liquidez e flexibilidade para fundo que operam no intraday. O ativo permite uma movimentação mais ágil, segundo Takahashi, que se mostra adequada para mercados que estão com direção pouco claras.