Amec, Abrapp e gestores de recursos debatem engajamento e aspectos ESG

Os aspectos ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) e o engajamento dos fundos de pensão e assets com as empresas investidas foram temas debatidos em um webinar realizado pela Abrapp – Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar. Com o título “ESG na Prática e sem Mitos”, o evento contou com apresentações de representantes da Amec, Abrapp, Fundação Real Grandeza, Previ-Ericsson, Schroders e BlackRock – clique aqui para assistir na íntegra. 

Luís Ricardo Martins, da Abrapp​. Foto: Divulgação.

Na abertura, o Diretor Presidente da Abrapp, Luís Ricardo Martins, destacou os avanços na direção de um maior profissionalismo dos dirigentes dos fundos de pensão na gestão dos recursos e a valorização dos aspectos ESG na tomada de decisões. “A busca por investimentos responsáveis está cada vez mais forte na agenda. A pandemia acelerou a conscientização”, disse. 

O Presidente-Executivo da Amec enfatizou que o termo ESG se tornou um mantra nas ações e eventos da associação. O tema já vinha em uma crescente de importância nos últimos anos, mas ganhou acelerada relevância entre os investidores, assets, fundos de pensão e seguradoras nos últimos meses.

Ele chamou a atenção para os compromissos públicos feitos por uma série de investidores institucionais ao redor do mundo que levam em consideração os aspectos ESG nas decisões de investimentos. Citou ainda questões como a que acentuada dos juros no país e a mudança de posicionamento da Business Roundtable, que trouxe o conceito de capitalismo de stakeholders.

Fábio Coelho lembrou que os fundos de pensão possuem passivos de longuíssimo prazo, de 30 anos, 50 anos, ou mais. “Nos fundos de pensão a importância da sustentabilidade é muito mais evidente porque mantém participações em empresas que podem durar várias décadas”, comentou. Então, existe uma grande importância no relacionamento e engajamento dos fundos de pensão com as empresas investidas.

Stewardship

As práticas de engajamento vieram ganhando mais força desde 2008, especialmente no Reino Unido, onde foram criadas orientações de boas práticas para os investidores institucionais se relacionarem com as empresas. O conjunto dessas práticas recebeu o nome em inglês de stewardship. São práticas realizadas em reuniões e ações para cobrar posicionamento das empresas em relação a temas diversos, como por exemplo, políticas de remuneração, estrutura de governança e diversos aspectos ESG.

No Código de Stewardship da Amec existe a indicação de se reportar anualmente ações de engajamento nas empresas investidas. Esse relacionamento de disclosure é considerado entre as melhores práticas internacionais de engajamento de investidores institucionais.

Luís Ricardo, da Abrapp, disse que a associação tem apoiado a divulgação entre suas associadas do Código Stewardship da Amec. A ação faz parte de um esforço de aproximação entre as duas associações. Ele também revelou o convite realizado para a Amec para integrar o Conselho de Autorregulação, que é uma iniciativa da Abrapp, que conta com a participação de diversas entidades representativas do mercado financeiro e do governo, como IBGC, Anbima, B3, Previc, entre outras.

Por onde começar?

Fábio Coelho, da Amec.

Um fundo de pensão ou asset que ainda não utiliza os critérios ESG ou adota apenas para alguns ativos, a recomendação é que possa ir avançando gradualmente. “Na condição de um investidor tradicional, não é preciso começar com o ESG para todos os ativos da carteira. Pode selecionar um grupo de empresas. Definir quais os ativos mais relevantes sob a ótica ambiental, social e de governança, ou seja, definir a materialidade do portfólio”, apontou o Presidente da Amec. Ele explicou que a materialidade tem a ver com a escolha das empresas para se tornarem objeto de engajamento.

Ele ainda ressaltou como um importante avanço é que já se percebe um conjunto de fundos de pensão do Brasil que adotam políticas de divulgação de editais de seleção de conselheiros. “Soma-se a isso o fato de que muitos investidores, mesmo com posições pequenas, podem fazer um bloco, um grupo, para indicar um representante de conselho”, destacou.

Fundos de pensão

Sergio Wilson, da Real Grandeza. Foto: Leo Pinheiro/Valor.

O Diretor Presidente da Real Grandeza, Sérgio Wilson, lembrou que a fundação está engajada com os princípios socioambientais há vários anos e conta com manual de princípios ESG. “A pandemia veio trazer mais foco a essa questão. O ESG saiu dos anexos e entrou para a capa dos relatórios das fundações, ganhando uma relevância extraordinária”, pontuou.

Ele indicou que a adoção de princípios na tomada de decisões de investimentos está relacionada com o controle de riscos. “Passou-se a entender que, com essas práticas, baixamos risco no longo prazo e conseguimos maior segurança nos investimentos e com sustentabilidade”, complementou. Os índices ESG estão performando melhor, segundo Sérgio Wilson, o que mostra que esses aspectos criam resiliência aos portfólios.

Sergio Wilson concordou que é essencial as EFPC exercerem o papel de acionista participando dos Conselhos das empresas. “Quem tem um determinado nível de ações tem obrigação fiduciária de participar do Conselho para trazer resultado, com ativismo”.

Rogério Tatulli, da Previ-Ericsson. Foto: Divulgação.

Rogério Tatulli, Diretor Superintendente da Previ-Ericsson, lembrou que já existe, no âmbito regulatório da Resolução CMN nº 4.661, uma recomendação sobre investimentos ESG, e todas as entidades devem seguir essa recomendação. “Como temos gestão terceirizada de investimento, devemos cobrar dos nossos gestores um posicionamento nas reuniões dos acionistas”. Tatulli disse ainda que é preciso medir alguns riscos muitas vezes intangíveis, como o de imagem, que pode afetar a rentabilidade do negócio.

Gestores das assets

Daniel Celano, Head da Schroders no Brasil, comentou que apenas as empresas com visão de sustentabilidade de longo prazo terão condições de sobreviver no futuro. “Questionamos se a empresa considera os riscos ambientais, se paga impostos, se cuida bem dos colaboradores”, disse. Se as respostas são negativas, isso se reflete no aumento dos riscos das empresas. Alguns deles são considerados riscos de “cauda”, que podem ser muito baixos, mas que quando ocorrem, podem provocar perdas muito grandes.

Daniel Celano, Country Head da Schroders no Brasil

Daniel Celano, da Schroders. Foto: Divulgação.

Ele disse ainda que o ESG exige uma abordagem própria, com olhar voltado para o futuro. Com mudanças climáticas e de comportamento dos mercados e das novas gerações, o socioambiental deve gerar maior impacto sobre as alocações futuras.

Pablo Riveroll, Head de Equities da Schroders, defendeu que uma análise ESG mais apropriada depende da realização de perguntas corretas. E chamou a atenção para a importância que as informações coletadas tenham capacidade de serem replicadas para testar a sustentabilidade das empresas.

O gestor disse que os investidores que seguem uma orientação ESG devem desenvolver maior engajamento nas empresas investidas. Além das votações em assembleias, a asset desenvolve, em casos mais problemáticos, ações de comunicação e diálogo com os administradores e conselhos das companhias.

Carlos Takahashi

Carlos Takahashi, da BlackRock no Brasil. Foto: Divulgação.

Carlos Takahashi, CEO da BlackRock no Brasil, retomou a trajetória do tema dentro da BlackRock, que é considerada a maior asset global em termos de ativos sob gestão. Duas cartas de seu CEO mundial, Larry Fink, de 2019 e de 2020, marcaram a indústria de fundos de investimentos. Nas cartas, o gestor colocou os temas e ações ESG no foco das discussões e no centro da gestão de recursos. “Na carta de 2020 há mensagens claras e objetivas para se considerar as mudanças climáticas e o que a BlackRock deveria fazer”, disse.

Ele citou por exemplo a indicação que a asset deveria deixar de investir em empresas que atuam na geração de energia com a utilização de carvão térmico. E para as empresas que consomem este tipo de energia, a gestora deve cobrar um plano de transição para a substituição das fontes atuais para energia limpa. No caso dos fundos com gestão passiva, a carta indicou que a BlackRock deve atuar junto aos provedores de índices para incorporar fatores ESG em suas metodologias.

O CEO da BlackRock no Brasil enfatizou as práticas de engajamento (stewardship) dos investimentos nas empresas para cobrar uma gestão alinhada com o ESG e indicou que tal atuação deve considerar uma fase de transição. “É preciso monitorar as empresas investidas para verificar o que as ações estão provocando”, disse Takahashi.

Ele mostrou também que as novas gerações, chamadas de millennials, já foram educadas com o olhar da sustentabilidade ambiental e que as empresas que não se adaptarem à nova realidade, terão mais dificuldades de sobreviver.